sexta-feira, 14 de abril de 2017

Historinha brasileira: de como entrar na política, roubar e ser muito feliz


´Zé Aproniano  trabalhava como pedreiro. Paulo Setts era sempre visto em seu consultório médico. Josepha Crescência era advogada. Anúbio Florentino contador e Malachias Petrônio tinha escritório de venda de imóveis. Já Asclepíades trabalhava como corrupto. De todos era o que melhor vivia.
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Tudo para ele começou assim: na juventude dava um duro danado como camelô para sustentar a família e até mesmo a sogra rabugenta e infame.

Um belo dia lhe arranjaram emprego como porteiro na Câmara Municipal. Ali, rapidamente aprendeu os hábitos da Casa e deu-se muito bem. A saber: fez pequenos favores a pessoas pobres, acobertou falhas de colegas e pagava chamadas de cana para bebos em botecos safados. Mais: arranjou fichas para atendimento médico, tickets a desempregados, conluios com líderes comunitários, etc..., etc..., etc...

Com isso, você queria o quê? Aparentou prestígio, angariou votos e, óbvio, foi eleito vereador. Teve, como seria de se esperar, excelente desempenho, ou seja: intermediou verbas, ganhou elegantes e justíssimas propinas, trocou favores, propiciou imoralidades e, pronto!, afirmou-se no ramo.

Mas, cruel, o povo que o elegera vereador exigiu dele mais e mais, e tornou-o deputado estadual. Coitado; como sofreu avançando horas e horas noite adentro, executando grandes planos para desviar dinheiro público e outras falcatruas. Resultado: o povo cobrou mais do pobre-diabo, que foi obrigado a ser deputado federal. Aí sim foi sofrimento grande.

Muito lhe foi imposto em termos de manobras e conciliábulos, traficâncias e caixa dois. Cansadíssimo, viu-se depois frente a novo e grande percalço: foi com notável esforço que o convenceram, ou melhor, intimaram a novo e terrível tormento: chegar ao Senado. 

Desesperado, sem saber mais o que fazer para atender ao povo ("Acho que esse povo quer que eu morra..."), continuou a trabalhar como corrupto, sofrendo inomináveis suplícios tipo beber champanhe com grandes empresários, almoçar com doleiros, ouvir reclamos de operadores de propina, fazer ajustes em dinheiro desviado para fora do país . 

Todavia, o povo queria mais - veja como o povo é cruel - e agora vinha forçá-lo a ser governador. "Ó, Senhor, que atroz destino, fado e sina", lamentava-se o corrupto na solidão, ajoelhado ante um oratório; e se perguntava: "Por quê? Por quê? Por quê?". 
Afinal, eleito ao novo cargo entregou-se ao martírio de atuar duplamente: como governador e como corrupto. Imbatível.

Afinal, anos e anos depois de grandes serviços prestados à safadagem, sentiu-se cansado; melhor dizendo, estava exausto e decidiu-se: reuniu toda a família e anunciou sua retirada da vida pública. 

Disse: "Após anos e anos trabalhando em favor do povo e da corrupção, mas sempre injustiçado pela imprensa, injuriado pelos adversários e acusado sem provas, quero comunicar que, ao contrário de Dom Pedro, não fico."

"Por que, papai, por que não fica mais na corrupção?", quis saber o filho mais velho, justificadamente preocupado. 

Ele respondeu: "Estou muito cansado. Não trabalhe tanto como o seu velho pai, meu filho. Corrupção é coisa de muita responsabilidade. Arte finíssima. Cansa muito. Corrupção é uma sina, é missão altíssima e exigente. Assim, não insistam, pois não mais trabalharei como corrupto. Não peçam mais a mim tal sacrifício."

"E o senhor vai trabalhar com o quê, se somente sabe trabalhar como corrupto e corruptor?", rebateu uma filha, temerosa de que o pai, afastado de seus afazeres, entrasse em lamentável depressão.

"Meus filhinhos", disse ele com os olhos em lágrimas, "agora papai vai ficar mais em casa e dar total assistência à família. Agora papai não precisa mais trabalhar como corrupto. Acabaram-se meus dias de sofrimento."

"Agora", disse com um sorriso no olhar, "papai vai ser  empreiteiro."

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